O uso crescente de medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy trouxe novas perguntas para a prática profissional: como organizar o exercício durante o tratamento? O que observar em relação à força, massa muscular, capacidade funcional, sintomas e tolerância ao treinamento?
Essas questões fazem parte de um cenário em rápida evolução e exigem interpretação crítica das evidências, individualização e acompanhamento profissional.
Canetas emagrecedoras mudaram as perguntas sobre exercício
O exercício continua sendo parte importante do cuidado em saúde, mas a presença de medicamentos voltados ao controle do peso e do metabolismo acrescenta novas variáveis à avaliação e à prescrição. Para fisioterapeutas e profissionais de Educação Física, o desafio não é apenas conhecer o medicamento, mas compreender como alterações de composição corporal, sintomas, capacidade funcional e resposta ao treinamento podem influenciar a tomada de decisão.
O que a evidência já mostra sobre composição corporal
Medicamentos baseados em incretinas, como agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duais de GIP/GLP-1, podem promover reduções expressivas do peso corporal e da gordura. Entretanto, a perda de peso também pode incluir redução de massa magra. No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, realizado com DXA, aproximadamente 75% do peso perdido com tirzepatida correspondeu à massa gorda e cerca de 25% à massa magra.
Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 20 ensaios clínicos randomizados e 15.782 participantes, mostrou que a massa magra correspondeu a aproximadamente 25% a 39% da perda total de peso com diferentes terapias incretínicas. A proporção foi, em média, semelhante à observada em intervenções intensivas de estilo de vida, enquanto intervenções associadas ao treinamento resistido apresentaram um perfil mais favorável de preservação da massa magra.
Esses resultados precisam ser interpretados com cuidado: redução de massa magra medida por DXA não significa automaticamente perda equivalente de músculo esquelético, força ou capacidade funcional. Avaliar a qualidade da perda de peso exige olhar além do número mostrado na balança (Look et al., 2025; Eisa & Barood, 2026; De Girolamo et al., 2026).
Onde o exercício entra?
O exercício não deve ser tratado como um elemento concorrente ao tratamento farmacológico. A pergunta mais útil é como integrar as estratégias de forma individualizada.
Em um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine, participantes com obesidade que haviam perdido peso inicialmente foram acompanhados durante um ano com exercício, liraglutida, combinação de exercício com liraglutida ou placebo. A combinação apresentou melhor manutenção saudável da perda de peso do que cada estratégia isoladamente e foi a única associada, naquele estudo, à melhora simultânea da aptidão cardiorrespiratória, sensibilidade à insulina e hemoglobina glicada.
Esse estudo avaliou liraglutida e não deve ser automaticamente extrapolado para todos os medicamentos atualmente disponíveis. Ainda assim, ele reforça uma ideia importante: tratamento farmacológico e exercício podem desempenhar funções complementares (Lundgren et al., 2021).
O que ainda exige cautela?
Ainda não existe uma única prescrição de exercício que possa ser aplicada automaticamente a todas as pessoas em tratamento com agonistas de GLP-1 ou GIP/GLP-1. Medicamento utilizado, magnitude e velocidade da perda de peso, sintomas gastrointestinais, ingestão alimentar, histórico de treinamento, comorbidades, força e capacidade funcional podem modificar a decisão profissional — inclusive em públicos com comorbidades metabólicas, como os discutidos em nosso conteúdo sobre exercício clínico em diabetes e obesidade.
Além disso, a literatura sobre efeitos de longo prazo na função muscular e sobre a melhor estratégia de treinamento especificamente durante o uso das diferentes terapias incretínicas continua evoluindo. Por isso, a prática profissional deve acompanhar as evidências sem transformar resultados iniciais em regras universais (De Girolamo et al., 2026; Eisa & Barood, 2026).
O que o profissional precisa observar?
- Exercício durante o uso de agonistas de GLP-1.
- Preservação de força, massa muscular e capacidade funcional.
- Critérios de segurança e individualização.
- Ajustes de prescrição diante de efeitos gastrointestinais e fadiga.
- Quando e como reavaliar a carga de treino durante o tratamento.
Perguntas frequentes
Quem usa Ozempic, Wegovy ou Mounjaro pode praticar exercício?
O tratamento farmacológico não elimina a importância do exercício, mas a prescrição deve ser individualizada. Condição clínica, experiência prévia, sintomas, ingestão alimentar, comorbidades e tolerância ao treinamento precisam ser considerados. Questões relacionadas ao medicamento, dose ou efeitos adversos devem ser discutidas com o profissional responsável pelo tratamento.
Canetas emagrecedoras causam perda de massa muscular?
Perdas importantes de peso podem incluir redução de massa magra. Estudos com terapias incretínicas mostram que parte da redução do peso corporal pode ocorrer nesse compartimento, mas massa magra medida por métodos como DXA não equivale diretamente a músculo esquelético nem significa necessariamente perda de força ou função. A interpretação precisa considerar composição corporal, capacidade funcional e contexto clínico.
Treinamento de força pode ajudar a preservar massa magra?
O treinamento resistido é uma estratégia importante para preservação de massa magra durante processos de perda de peso. Uma meta-análise de 2026 encontrou perfil mais favorável de preservação de massa magra quando intervenções de estilo de vida incluíam treinamento resistido. Entretanto, a evidência direta sobre a combinação com cada medicamento incretínico específico ainda está em evolução.